Sempre fui de afundar o corpo todo na piscina e encolher. Ficar ali, entregue ao silêncio tão oco mas tão preenchido de passado que os fundos costumam ter. Debaixo d'água eu quase lembro da minha quase forma do tempo do útero. Fico. Força pra não subir, o ar saindo controlado junto com as bolhas. Depois vem o esgotamento que quase que a força me traz de volta para a superfície. Olhando para as nuvens ainda ofegante, penso que mais do que a falta de oxigênio, a impossibilidade de respirar é causada pela dor dessa tal lembrança uterina, Tenho a impressão de que soa proibido aos olhos da vida a consciência do início. Sinto-me infligindo alguma lei quando a quase lembrança quase deixa de ser quase. Eu sei que estive lá. O útero é a prova do aqui.
Um dia ainda me afogo de propósito só pra conseguir a lembrança por inteiro. Acho que é a morte que nos conta o início e acho também que ela leva jeito pra contar histórias.