sábado, 26 de março de 2016

Sobrecimento

   Sobe o cimento.
 - Bom dia Dona Maria, bom dia Cleyton, bom dia Joyce, Bom dia José.
   Desce.
 - Ó aquilo lá, tá pra resolver.
 - Ê safado, fala tu!
   Sobe o cimento.
 - JEEENIFEERR! Você quer apanhar? JÁ pra CASA!
   Desce.
  - VAGABUNDA!
  - Ô Seu Matias, depois passa lá em casa que aquele teto lá da cozinha que o senhor fez já tá pingando na casa toda.
   Desce.
  - Lorraine, a Nicole disse pra Kailany que o Alan tá bem afim de tu.
  - Xô, Xô, cachorro ruim!
    Sobe Cimento.
  - JENIFEEER, tu tá me ouvindo direito garota?
  - PRÊ-PARA!
  - Já passei por muita coisa nessa vida, sabe minha filha.
    Desce.
  - Fala abençoado!
  - Jesus- Ave Maria- Ogum!
  - JENIFEEER, vem jantar garota!
    Sobe cimento.
  - Ô Pedro, ô Pedrôôô! Oi tia Neuma, o Pedro pode brincar?
  - Os cara lá de cima foram se meter onde não devia dá nisso.
     Desce.
   - Um dia a casa cai.
   - A casa já tá caindo.
   - Antigamente aqui no morro pelo menos a gente sabia quem era quem.
      Sobe cimento"
   - Eles tão subindo , tão subindo!! A casa já caiu!
   - TÁ DOMINADO!
      Desce.
   - JENIFER MINHA FILHA PELO AMOR DE DEUS, JENIFEER!
   - Rebentaaa, rebenta, é o comando porra!!
   - Jesus, JENIFER, JENIFER MINHA FILHA!
     Corre.
   - JENIFER!
   - É o poder, ATIRA CARALHO!
   - PORRA WILL, NEM MIRÁ TU MIRA DIREITO!
     Explode cimento.
   - A CASA CAIU, REBENTA MAIS PORRA!
   - NÃO!
     Abaixa
   - FILHA!
   - CABÔ O AMOR !"
      Fecha a janela, a escola, o boteco.
   - ACABOU PRA VOCÊS FILHOS DA PUTA, VOLTA DA ONDE VEIO DEMÔNIO!
     Sangue cimento.
   - Os cagão tão tudo fugindo, CORVARDES! Corre, corre que o que é de vocês tá marcado.
      Desce o corpo.
   
     Silêncio.


       Sobe cimento.
    - Bom dia Maria, Cleyton, Joyce, José...


sexta-feira, 11 de março de 2016

Tênue coreografia

    Ela tinha cinco anos e ele já estava na alfabetização. Enquanto ele juntava "C" com "A" que dá CA ela gostava de dançar. Código nenhum fazia parte da vida dela, o corpo sim. O corpo sempre. Os cinco anos bem vividos já lhe apresentava a poesia, apreciava o mundo sem saber nada sobre "PUXE" ou "EMPURRE." Gostava mesmo é de dançar. Ele já..."P" com "U" PU "X" com "E" é o que mesmo? Gostava de encaixar as coisas no lugar. Eram amigos de recreio. Ele a ajudava sempre a subir no escorrega e ela gostava de cantarolar para ele alguma canção. Gostavam de estar juntos, mas não sabiam porque. Ele deixava ela comer toda a sua merenda e ela o deixava pentear seus cabelos. Ela lhe passava batom nos lábios , deixando sobrar para as bochechas e ele gostava da cara de vergonha que ela fazia. Foi na festa junina da escola, para ser mais preciso, dentro da piscina de bolas que as coisas ficaram claras para eles. Enquanto ele a tranquilizava dizendo-lhe que não era possível morrer afogado de bolinhas, entre uma pausa e outra ouviram, ao mesmo tempo, a declaração do mundo adulto sobre o que eles estavam vivendo: "que gracinha esses dois, são namoradinhos!" Era a mãe dele. A professora sorriu, a mãe dela não queria interferir mas sorriu também achando graça. Foi aí então que eles resolveram acreditar no que haviam ouvido. Se olharam tímidos sabendo que eles agora tinham algum tipo de relação que lhe deixavam de bochechas coradas. A relação mudou então. Andavam de mãos dadas pela escola, perderam um pouco da espontaneidade, agora escondiam coisas um do outro, se escondiam do outro. Ela não cantava mais com frequência e ele começou a deixar menos que lhe passasse o batom. Mãozinhas na outra. As vezes se esqueciam que alguma coisa havia mudado e brincavam normalmente, aí lembravam e se davam as mãos em silencio. Passavam as vezes o recreio todo em silencio. Para ele era difícil ir para a sala de aula e deixá-la, para ela também, mas em algum lugar sentia um pequeno alívio de poder continuar se permitindo estar naquele seu mundinho da professora cantante, dos seus amigos bobões como ela. Era só na sua sala que a menina tinha coragem de dançar, era um pacto silencioso que a meninazinha tinha com a sua turma da pré-alfabetização. Foi então que a professora de musica notou a menina, num cantinho da sala, aquela coisa miudinha de olhos fechados sentindo a canção,leve, dançando com tudo de si. Ninguém sabia, mas ela conversava com a sua alma, a menina saia dali, ia pra todos os cantos do mundo de dentro. Foi então que no meio da sua dança aconteceu a sua primeira intuição feminina, sentiu a necessidade de abrir os olhos, meio em si meio não. A primeira traição: não era mais a sua turma somente, a professora discretamente havia chamado a escola inteira para contemplar aquela cena irresistível. A menina sentiu pela primeira vez o constrangimento, um pouco tonta deu a volta no olhar e foi descobrindo pessoa por pessoa: as meninas mais velhas, as outras professoras, o porteiro da escola, a mãe do...e o próprio. Era ele olhando-a de fora. Se olharam profundamente e ali ambos sabiam que tudo havia acabado. A meninazinha abriu o berreiro, a professora a pegou no colo sem perceber o que acabara de fazer. Nunca mais andaram juntos. Ela aprendeu logo a subir no escorrega sozinha só pra se vingar, e ele passou a passar os recreios jogando totó pra distrair a cabeça. Ela nunca mais dançou.