segunda-feira, 20 de julho de 2015

ENTRE O SONHO E A TERRA

  Eu sei que sonhei mas não lembro. A respiração ofegante denuncia que ficou em algum lugar da memória do corpo. Talvez seja culpa dos travesseiros que cochicham nos ouvidos de quem dorme. Então acordo com essa sensação estranha de quem tomou café forte em jejum e confundo a minha infância com um filme , livro ou uma outra qualquer história que ouvi em alguma esquina de terceiros. O corpo toma por verdade a nossa vontade de nos transportarmos para lá, onde as crianças cresciam nos quintais ou para o futuro de crianças espaciais comedoras de capsulas. Na verdade agora eu  não lembro nem se eu acordei, ou se eu me esqueci da hora, talvez seja culpa do meu despertador que gosta de dormir até mais tarde, e eu ainda esteja sonhando agora.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

FLUXO SUBTERRÂNEO

   Essa tentativa ridícula da recomposição no espaço concreto é o que faz o trem andar. A solidão tão mal acompanhada de seus tantos "Ais!" e fones, no subterrâneo, mais me parece a responsável pelo novo combustível contemporâneo. Sete bilhões no mundo. Setecentas delas no mesmo metrô. Cem no mesmo vagão. Oitenta delas procuram seus eixos. Cinquenta disputam um lugar. Trinta se preocupam com o vão entre o trem e a plataforma ao sair. Quinze pensam em como estão sendo olhados. Oito olham. Duas pensam na probabilidade de se esbarrarem novamente e apenas um conversa com a morte dentro do próprio umbigo. Um, dois, três...Cem, milhões, bilhões....todos. Todos contam como foram engolidos pelo entre e gaguejam pela própria incapacidade de se fazer entender. A saída não é mais almejada. A solidão sim, porque ela faz barulho. O próprio barulho torna-se companhia. É absurda a capacidade do universo em tornar tudo cíclico. O processo de espiral prevalece entre nós, entre cinquenta delas que riem da instabilidade para disfarçar a dor da quase queda deixando compreensível a decisão do tombo. A queda torna-se alívio e a chegada veste-se de fim. E o ciclo? O ciclo continua trazendo o vazio de um roda roda sem crianças girando com a força do vento onde apenas o barulho gerado pela ferrugem é o responsável pela prova de sua existência.