O canto do meu olho está apaixonado, o danado só deu por espiar.
Arrepiado, estica ao máximo pelos os gestos do outro corpo que dança despreocupadamente.
As pupilas que aqui estão, andam esquecidas de piscar. Não piscam.
O canto do meu olho é um safado, tarado, inconsequente, tansviado.
Se não fossem minhas malditas pernas medrosas, meus lábios
pavorosamente tímidos e minhas mãos que não sabem pousar,
eu já teria te dado pelo menos um bom dia. Quem sabe um dia dá.
O canto do meu olho precisa convencer o resto do corpo
sobre o amor.
Miolos Miúdos
Espaço para se dançar no silencio dos olhos.
terça-feira, 27 de setembro de 2016
sábado, 26 de março de 2016
Sobrecimento
Sobe o cimento.
- Bom dia Dona Maria, bom dia Cleyton, bom dia Joyce, Bom dia José.
Desce.
- Ó aquilo lá, tá pra resolver.
- Ê safado, fala tu!
Sobe o cimento.
- JEEENIFEERR! Você quer apanhar? JÁ pra CASA!
Desce.
- VAGABUNDA!
- Ô Seu Matias, depois passa lá em casa que aquele teto lá da cozinha que o senhor fez já tá pingando na casa toda.
Desce.
- Lorraine, a Nicole disse pra Kailany que o Alan tá bem afim de tu.
- Xô, Xô, cachorro ruim!
Sobe Cimento.
- JENIFEEER, tu tá me ouvindo direito garota?
- PRÊ-PARA!
- Já passei por muita coisa nessa vida, sabe minha filha.
Desce.
- Fala abençoado!
- Jesus- Ave Maria- Ogum!
- JENIFEEER, vem jantar garota!
Sobe cimento.
- Ô Pedro, ô Pedrôôô! Oi tia Neuma, o Pedro pode brincar?
- Os cara lá de cima foram se meter onde não devia dá nisso.
Desce.
- Um dia a casa cai.
- A casa já tá caindo.
- Antigamente aqui no morro pelo menos a gente sabia quem era quem.
Sobe cimento"
- Eles tão subindo , tão subindo!! A casa já caiu!
- TÁ DOMINADO!
Desce.
- JENIFER MINHA FILHA PELO AMOR DE DEUS, JENIFEER!
- Rebentaaa, rebenta, é o comando porra!!
- Jesus, JENIFER, JENIFER MINHA FILHA!
Corre.
- JENIFER!
- É o poder, ATIRA CARALHO!
- PORRA WILL, NEM MIRÁ TU MIRA DIREITO!
Explode cimento.
- A CASA CAIU, REBENTA MAIS PORRA!
- NÃO!
Abaixa
- FILHA!
- CABÔ O AMOR !"
Fecha a janela, a escola, o boteco.
- ACABOU PRA VOCÊS FILHOS DA PUTA, VOLTA DA ONDE VEIO DEMÔNIO!
Sangue cimento.
- Os cagão tão tudo fugindo, CORVARDES! Corre, corre que o que é de vocês tá marcado.
Desce o corpo.
Silêncio.
Sobe cimento.
- Bom dia Maria, Cleyton, Joyce, José...
- Bom dia Dona Maria, bom dia Cleyton, bom dia Joyce, Bom dia José.
Desce.
- Ó aquilo lá, tá pra resolver.
- Ê safado, fala tu!
Sobe o cimento.
- JEEENIFEERR! Você quer apanhar? JÁ pra CASA!
Desce.
- VAGABUNDA!
- Ô Seu Matias, depois passa lá em casa que aquele teto lá da cozinha que o senhor fez já tá pingando na casa toda.
Desce.
- Lorraine, a Nicole disse pra Kailany que o Alan tá bem afim de tu.
- Xô, Xô, cachorro ruim!
Sobe Cimento.
- JENIFEEER, tu tá me ouvindo direito garota?
- PRÊ-PARA!
- Já passei por muita coisa nessa vida, sabe minha filha.
Desce.
- Fala abençoado!
- Jesus- Ave Maria- Ogum!
- JENIFEEER, vem jantar garota!
Sobe cimento.
- Ô Pedro, ô Pedrôôô! Oi tia Neuma, o Pedro pode brincar?
- Os cara lá de cima foram se meter onde não devia dá nisso.
Desce.
- Um dia a casa cai.
- A casa já tá caindo.
- Antigamente aqui no morro pelo menos a gente sabia quem era quem.
Sobe cimento"
- Eles tão subindo , tão subindo!! A casa já caiu!
- TÁ DOMINADO!
Desce.
- JENIFER MINHA FILHA PELO AMOR DE DEUS, JENIFEER!
- Rebentaaa, rebenta, é o comando porra!!
- Jesus, JENIFER, JENIFER MINHA FILHA!
Corre.
- JENIFER!
- É o poder, ATIRA CARALHO!
- PORRA WILL, NEM MIRÁ TU MIRA DIREITO!
Explode cimento.
- A CASA CAIU, REBENTA MAIS PORRA!
- NÃO!
Abaixa
- FILHA!
- CABÔ O AMOR !"
Fecha a janela, a escola, o boteco.
- ACABOU PRA VOCÊS FILHOS DA PUTA, VOLTA DA ONDE VEIO DEMÔNIO!
Sangue cimento.
- Os cagão tão tudo fugindo, CORVARDES! Corre, corre que o que é de vocês tá marcado.
Desce o corpo.
Silêncio.
Sobe cimento.
- Bom dia Maria, Cleyton, Joyce, José...
sexta-feira, 11 de março de 2016
Tênue coreografia
Ela tinha cinco anos e ele já estava na alfabetização. Enquanto ele juntava "C" com "A" que dá CA ela gostava de dançar. Código nenhum fazia parte da vida dela, o corpo sim. O corpo sempre. Os cinco anos bem vividos já lhe apresentava a poesia, apreciava o mundo sem saber nada sobre "PUXE" ou "EMPURRE." Gostava mesmo é de dançar. Ele já..."P" com "U" PU "X" com "E" é o que mesmo? Gostava de encaixar as coisas no lugar. Eram amigos de recreio. Ele a ajudava sempre a subir no escorrega e ela gostava de cantarolar para ele alguma canção. Gostavam de estar juntos, mas não sabiam porque. Ele deixava ela comer toda a sua merenda e ela o deixava pentear seus cabelos. Ela lhe passava batom nos lábios , deixando sobrar para as bochechas e ele gostava da cara de vergonha que ela fazia. Foi na festa junina da escola, para ser mais preciso, dentro da piscina de bolas que as coisas ficaram claras para eles. Enquanto ele a tranquilizava dizendo-lhe que não era possível morrer afogado de bolinhas, entre uma pausa e outra ouviram, ao mesmo tempo, a declaração do mundo adulto sobre o que eles estavam vivendo: "que gracinha esses dois, são namoradinhos!" Era a mãe dele. A professora sorriu, a mãe dela não queria interferir mas sorriu também achando graça. Foi aí então que eles resolveram acreditar no que haviam ouvido. Se olharam tímidos sabendo que eles agora tinham algum tipo de relação que lhe deixavam de bochechas coradas. A relação mudou então. Andavam de mãos dadas pela escola, perderam um pouco da espontaneidade, agora escondiam coisas um do outro, se escondiam do outro. Ela não cantava mais com frequência e ele começou a deixar menos que lhe passasse o batom. Mãozinhas na outra. As vezes se esqueciam que alguma coisa havia mudado e brincavam normalmente, aí lembravam e se davam as mãos em silencio. Passavam as vezes o recreio todo em silencio. Para ele era difícil ir para a sala de aula e deixá-la, para ela também, mas em algum lugar sentia um pequeno alívio de poder continuar se permitindo estar naquele seu mundinho da professora cantante, dos seus amigos bobões como ela. Era só na sua sala que a menina tinha coragem de dançar, era um pacto silencioso que a meninazinha tinha com a sua turma da pré-alfabetização. Foi então que a professora de musica notou a menina, num cantinho da sala, aquela coisa miudinha de olhos fechados sentindo a canção,leve, dançando com tudo de si. Ninguém sabia, mas ela conversava com a sua alma, a menina saia dali, ia pra todos os cantos do mundo de dentro. Foi então que no meio da sua dança aconteceu a sua primeira intuição feminina, sentiu a necessidade de abrir os olhos, meio em si meio não. A primeira traição: não era mais a sua turma somente, a professora discretamente havia chamado a escola inteira para contemplar aquela cena irresistível. A menina sentiu pela primeira vez o constrangimento, um pouco tonta deu a volta no olhar e foi descobrindo pessoa por pessoa: as meninas mais velhas, as outras professoras, o porteiro da escola, a mãe do...e o próprio. Era ele olhando-a de fora. Se olharam profundamente e ali ambos sabiam que tudo havia acabado. A meninazinha abriu o berreiro, a professora a pegou no colo sem perceber o que acabara de fazer. Nunca mais andaram juntos. Ela aprendeu logo a subir no escorrega sozinha só pra se vingar, e ele passou a passar os recreios jogando totó pra distrair a cabeça. Ela nunca mais dançou.
domingo, 21 de fevereiro de 2016
Sobre o fundo
Sempre fui de afundar o corpo todo na piscina e encolher. Ficar ali, entregue ao silêncio tão oco mas tão preenchido de passado que os fundos costumam ter. Debaixo d'água eu quase lembro da minha quase forma do tempo do útero. Fico. Força pra não subir, o ar saindo controlado junto com as bolhas. Depois vem o esgotamento que quase que a força me traz de volta para a superfície. Olhando para as nuvens ainda ofegante, penso que mais do que a falta de oxigênio, a impossibilidade de respirar é causada pela dor dessa tal lembrança uterina, Tenho a impressão de que soa proibido aos olhos da vida a consciência do início. Sinto-me infligindo alguma lei quando a quase lembrança quase deixa de ser quase. Eu sei que estive lá. O útero é a prova do aqui.
Um dia ainda me afogo de propósito só pra conseguir a lembrança por inteiro. Acho que é a morte que nos conta o início e acho também que ela leva jeito pra contar histórias.
Um dia ainda me afogo de propósito só pra conseguir a lembrança por inteiro. Acho que é a morte que nos conta o início e acho também que ela leva jeito pra contar histórias.
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
Frio de Janeiro
Desperta a dor. Olhos quase abertos sobre o lençol. 24 batidas na hora exata à frente. É sempre hora de levantar e talvez seja por isso que nunca pontuei um sonho. Incompletos, misturam-se com o pijama já fora do corpo e a roupa suja do já inexistente ontem. Fedem. Cafeína pra partir pra ação, partir a cara, vencer a fila, varrer a falha, quem planta colhe mas portar é crime. Então que comecem as obras, não primas, aquelas que podem fazer barulho antes das dez, trompete não. Progresso rompendo nuvens, impondo curvas no trajeto dos pássaros, impondo mais, mais, mais,mas só vale com o "i" no meio que é para abafar o barulho do chicote com as buzinas. Divido meu pão sabor petróleo com a urgência que tem cara de menino que tirou uma faca do próprio bolso para repartir o alimento. Parte me olhando de tal fundo que posso jurar ter visto a minha face na forma daquele pão. Atravesso a rua por temer uma criança. Observo o menino rasgando o corpo de cristo com seus podres e poucos dentes. Sinto a mordida na pele, na nuca nua de calor. Na quase ciclovia o mesmo pensamento de "o caminho ainda dá pra aproveitar " da falsa vida saudável respirando a falta de ar. Um meio porco meio homem me toca com palavras que ficam grudadas nos meus seios. Mesmo com o nojo e a vontade de vomitar , pra ver se a palavra sai, ainda a esperança do " dá pra ver o mar" mas tem um sujeito atrás e atrasada preciso apressar, os pedais para o túnel que exige mais pressa pra não perder...perdeu, perdeu,perdeu, o celular e a cédula sagrada que nunca dá. Depois do almoço os sonhos voltam a me cobrar e então fumo um cigarro pra ver se eles saem com a fumaça, pra ver se sai com o cocô, pra ver se sai, pra tirar a mancha. Não sai, não sai o quase grito que é abafado pelas armaduras vazias montadas em cavalos com permissão para atirar.. Não sai. Nem sonho nem grito.
Ainda antes de dormir, não dá, os ouvidos sofrem a agressão das panelas. O único barulho permitido depois das dez abafando o tiro na urgência com cara de menino. Amanhã divido meu pescoço sabor petróleo com outro. Finalmente o sonho, onde parei? Não termina, acumula pontos e com três...continua sempre...Desperta a dor...
Ainda antes de dormir, não dá, os ouvidos sofrem a agressão das panelas. O único barulho permitido depois das dez abafando o tiro na urgência com cara de menino. Amanhã divido meu pescoço sabor petróleo com outro. Finalmente o sonho, onde parei? Não termina, acumula pontos e com três...continua sempre...Desperta a dor...
segunda-feira, 20 de julho de 2015
ENTRE O SONHO E A TERRA
Eu sei que sonhei mas não lembro. A respiração ofegante denuncia que ficou em algum lugar da memória do corpo. Talvez seja culpa dos travesseiros que cochicham nos ouvidos de quem dorme. Então acordo com essa sensação estranha de quem tomou café forte em jejum e confundo a minha infância com um filme , livro ou uma outra qualquer história que ouvi em alguma esquina de terceiros. O corpo toma por verdade a nossa vontade de nos transportarmos para lá, onde as crianças cresciam nos quintais ou para o futuro de crianças espaciais comedoras de capsulas. Na verdade agora eu não lembro nem se eu acordei, ou se eu me esqueci da hora, talvez seja culpa do meu despertador que gosta de dormir até mais tarde, e eu ainda esteja sonhando agora.
quinta-feira, 16 de julho de 2015
FLUXO SUBTERRÂNEO
Essa tentativa ridícula da recomposição no espaço concreto é o que faz o trem andar. A solidão tão mal acompanhada de seus tantos "Ais!" e fones, no subterrâneo, mais me parece a responsável pelo novo combustível contemporâneo. Sete bilhões no mundo. Setecentas delas no mesmo metrô. Cem no mesmo vagão. Oitenta delas procuram seus eixos. Cinquenta disputam um lugar. Trinta se preocupam com o vão entre o trem e a plataforma ao sair. Quinze pensam em como estão sendo olhados. Oito olham. Duas pensam na probabilidade de se esbarrarem novamente e apenas um conversa com a morte dentro do próprio umbigo. Um, dois, três...Cem, milhões, bilhões....todos. Todos contam como foram engolidos pelo entre e gaguejam pela própria incapacidade de se fazer entender. A saída não é mais almejada. A solidão sim, porque ela faz barulho. O próprio barulho torna-se companhia. É absurda a capacidade do universo em tornar tudo cíclico. O processo de espiral prevalece entre nós, entre cinquenta delas que riem da instabilidade para disfarçar a dor da quase queda deixando compreensível a decisão do tombo. A queda torna-se alívio e a chegada veste-se de fim. E o ciclo? O ciclo continua trazendo o vazio de um roda roda sem crianças girando com a força do vento onde apenas o barulho gerado pela ferrugem é o responsável pela prova de sua existência.
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