quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Frio de Janeiro

      Desperta a dor. Olhos quase abertos sobre o lençol. 24 batidas na hora exata à frente. É sempre hora de levantar e talvez seja por isso que nunca pontuei um sonho. Incompletos, misturam-se com o pijama já fora do corpo e a roupa suja do já inexistente ontem. Fedem. Cafeína pra partir pra ação, partir a cara, vencer a fila, varrer a falha, quem planta colhe mas portar é crime. Então que comecem as obras, não primas, aquelas que podem fazer barulho antes das dez, trompete não. Progresso rompendo nuvens,  impondo curvas no trajeto dos pássaros, impondo mais, mais, mais,mas só vale com o "i" no meio que é para abafar o barulho do chicote com as buzinas. Divido meu pão sabor petróleo com a urgência que tem cara de menino que tirou uma faca do próprio bolso para repartir o alimento. Parte me olhando de tal  fundo que posso jurar ter visto a minha face na forma daquele pão. Atravesso a rua por temer uma criança. Observo o menino rasgando o corpo de cristo com seus podres e poucos dentes. Sinto a mordida na pele, na nuca nua de calor. Na quase ciclovia o mesmo pensamento de  "o caminho ainda dá pra aproveitar " da falsa vida saudável respirando a falta de ar. Um meio porco meio homem me toca com palavras que ficam grudadas nos meus seios. Mesmo com o nojo e a vontade de vomitar , pra ver se a palavra sai, ainda a esperança do " dá pra ver o mar" mas tem um sujeito atrás e atrasada preciso apressar, os pedais para o túnel que exige mais pressa pra não perder...perdeu, perdeu,perdeu, o celular e a cédula sagrada que nunca dá. Depois do almoço os sonhos voltam a me cobrar e então fumo um cigarro pra ver se eles saem com a fumaça, pra ver se sai com o cocô, pra ver se sai, pra tirar a mancha. Não sai, não sai o quase grito que é abafado pelas armaduras vazias montadas em cavalos com permissão para atirar.. Não sai. Nem sonho nem grito.
  Ainda antes de dormir, não dá, os ouvidos sofrem a agressão das panelas. O único barulho permitido depois das dez abafando o tiro na urgência com cara de menino. Amanhã divido meu pescoço sabor petróleo com outro. Finalmente o sonho, onde parei? Não termina, acumula pontos e com três...continua sempre...Desperta a dor...

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