quarta-feira, 15 de abril de 2015

Sócrates

Não sei. Sei nunca. Sei que não sei. Filosoficamente parece-me familiar. Foi o riso que saiu antes da hora. Deve ter sido alguma coisa que você não disse e que me fez lembrar. A gesticulação dos teus lábios pela lembrança. Ainda não sei, talvez saiba e quem souber que me conte: 1, 2, 3,4...não cinco e não sei. Sei não porque nem a vida tem razão. Musicalmente soou-me familiar. Chorei antecipadamente. Deve ter sido alguma canção que deixei escapulir observando o movimento das suas sobrancelhas e do outro, da outra e também daquele desconhecido tão previsível, coitado. O mistério é o que nos resta quando não há reconhecimento. Mísero mistério habitante das entrelinhas. Míseras estrelas que, na distância dos corpos, mantém um passado belo e misterioso.
                                       Sei não.

Tombo do tempo.

Cá estou sentindo falta da superfície para segurar o tempo. Gastei tudo o que ia dizer com bobagens. Parei por aqui porque tem hora que a palavra dança mais do que a gente e a vergonha vem divulgando entusiasmos. Adeus, fico aqui com a nostalgia de algum tempo em que existiam paredes atrás dos dias, dos ponteiros e das rugas.

Insônia

Antes de falar sobre você eu preciso dormir em mim. Eu nunca mais quero pensar nisso tudo antes de fechar os olhos. Antes de isso tudo fechar os olhos.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Da vez da distração.

Da primeira vez em que tentei me matar,
meu pai me pegou no ar entre o trepa trepa e o chão. "Meu filho mais atenção!" Papai não entendeu porque comecei a chorar. "Foi o susto!" Repetia mamãe.
Da segunda vez em que tentei me matar,
passei a tarde toda no banheiro. Foi a pior dor de barriga da minha ainda vida: leite com manga em excesso. Ainda no vaso, pensei que havia conseguido.
Da terceira vez em que tentei me matar,
não dava. Tinham grades na sala de aula da sétima série.
Da quarta vez em que tentei me matar,
fui acordado com a boca molhada do salva-vidas soprando meus lábios. Foi o motivo que mais pesou para eu partir para a quinta.
Da quinta vez em que tentei me matar,
não tive coragem de apertar o gatilho. Descobri logo em seguida, que a arma era uma relíquia do meu bisavô e não funcionava para morrer.
Da sexta vez em que tentei me matar,
era aniversário do Betinho, não dava pra faltar,um dia a mais...
Da sétima vez em que tentei me matar,
troquei os frascos e tomei antidepressivo. Não tive vontade de matar naquele dia.
Da oitava vez em que tentei me matar,
eu morava no primeiro andar.
Da nona vez em que tentei me matar,
tinha tanta coisa na dispensa , que aproveitei o gás para cozinhar batatas recheadas.
 Da décima vez em que tentei me matar resolvi parar de me matar de tanto tentar se matar.
 Da primeira vez em que eu não tentei me matar, eu consegui.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Crise dos seis

  "O bebê começa por aqui." Os dedinhos miúdos apontados para o centro do umbigo em plena descoberta. No auge dos seis Nina pesquisa o que sente do que é feminino. Em tempo recorde pegou a boneca, escondeu na blusa, abraçou a suposta barriga um pouco pontiaguda por causa das mãos feitas de plástico do seu primeiro bebê. A boneca cai. Nina pensa na gravidade sem a necessidade de defini-la com lei. A Maçã de Newton, a boneca de Nina. Gravidade e gravidez. Pegou a boneca novamente e repetiu toda a partitura. No meio do caminho reencontrou seu umbigo, percebeu o centro, enfiou o dedinho novamente e retirou rapidamente com medo da existência de  um bebê lá dentro. "Como chegaram até aqui?" Se afligiu pela possibilidade de ter cegado o seu filho. "Como chegam cegos, brancos, pretos, sem pé, sem dedinho, cheios de sardinhas, como chegam até aqui?" Observou que sua pele morena não se assemelhava com a branca da pele-plástico da sua boneca-bebê. "Ela não se parece comigo." Jogou a boneca no chão, observou e comprovou novamente a gravidade. Caminhou até a porta do quarto , esticou o pescoço para conseguir enxergar a sua mãe em outro cômodo, no sofá. Olhou. Muito. Correu para o quarto, boneca novamente. "Você também não se parece com a minha mãe." Olhou no fundo dos olhos rasos da boneca e lembrou da sua amiga da escola que também não se parece com os pais. " você foi adotada" Ploft. Gravidade. Umbigo. "Chegam os adotados até aqui? Como chegam?" Correu pro espelho, tirou a roupa. Chegou mais perto de si possível. Se olhou dentro dos olhos, a pele morena, apalpou as bochechas, orelhas e boca."Olhos da mamãe, boca do papai" Sorriu por descobrir a semelhança. Queixo, pescoço, ombros, mama. "no peitinho da mamãe cabem mais nenéns." Descobriu a ficção. Desceu mais , tomou cuidado com o umbigo, até descer as mãos para a vagina. Despiu a boneca e descobriu que ela não tinha periquita. "Você veio de outro país, você não faz xixi."
Dedo sobre a beirada do umbigo. "No Japão o bebê também começa aqui?" A pequena nudez de seis anos permaneceu imóvel. Pensou na cegueira do seu filho, na adoção, na gravidez, gravidade, centro, Japão, pele, plástico, semelhança...sentiu uma leve tontura e descobriu o acúmulo. Voltou de si. Eureca! De repente eis que surge a solução da sua primeira angústia declarada, o caminho para o Oráculo, a resposta para tudo, melhor que Google, Papai Noel e Deus:
- Ô MANHÊÊ !

Olhos de ouvir

Os meus olhos permaneceram fechados, mas pude ouvir você entrar pé anti pé. Abriu o armário, tirou a camiseta azul e em seguida a calça cheia de botões e bolsos que confundem suas chaves, carteira, identidade e celular. Ficou de cueca, se olhou no espelho e partiu pro banheiro. Pensou no aluguel enquanto lavava o rosto, nos planos da viagem escovando os dentes e depois em algumas das centenas de filosofias que costumas colecionar. Riu de si, suspirou pra continuar, no caminho da cama pensou na melhor maneira em me acordar. Debruçou sobre o meu corpo e os meus olhos ainda estavam fechados quando pude sentir o seu lábio respirando quente sobre meus pés, pernas, coxas, virilha, barriga, seios, nuca, ouvidos e finalmente o sussurro :
 -Amor? 
 - Chegou? Nem vi você entrar.

Aos que sabem perder.


 "Dessa vez eu ganho delas." Penso sempre antes de preencher o papel. Inútil. "Hoje escreverei exatamente o que eu tô sentindo." Escrevo o oposto. "Leite, maçã,ovos, farinha..." Esqueço do pão. "Eu vou conseguir fazer ele entender o meu lado!" Escrevo : Desculpas. Enquanto a caneta rasga o papel consecutivamente perco todas as metáforas que poderiam expor a  genialidade do pensamento que sai em disparada fazendo confusão. A luta continua mas as palavras sempre ganham de sete a zero. Bom mesmo é quem se deixa escorregar por elas e brinca de fracassar sempre. Escrever é caminhar completamente nu na rua da Alfândega, é puxar um pagode numa rodinha punk, é entrar uniformizado na torcida inimiga. A inadequação se faz presente e acabamos por não esconder nada, sem querer não querendo,quase querendo, querendo muito. A ficção é somente mais uma fofoca que dá prazer em aumentar um ponto aqui outro acolá pelo prazer de colocar "e se...." em todas as histórias do mundo. E se....eu parasse por aqui? Parei. Oito a zero para elas.