"O bebê começa por aqui." Os dedinhos miúdos apontados para o centro do umbigo em plena descoberta. No auge dos seis Nina pesquisa o que sente do que é feminino. Em tempo recorde pegou a boneca, escondeu na blusa, abraçou a suposta barriga um pouco pontiaguda por causa das mãos feitas de plástico do seu primeiro bebê. A boneca cai. Nina pensa na gravidade sem a necessidade de defini-la com lei. A Maçã de Newton, a boneca de Nina. Gravidade e gravidez. Pegou a boneca novamente e repetiu toda a partitura. No meio do caminho reencontrou seu umbigo, percebeu o centro, enfiou o dedinho novamente e retirou rapidamente com medo da existência de um bebê lá dentro. "Como chegaram até aqui?" Se afligiu pela possibilidade de ter cegado o seu filho. "Como chegam cegos, brancos, pretos, sem pé, sem dedinho, cheios de sardinhas, como chegam até aqui?" Observou que sua pele morena não se assemelhava com a branca da pele-plástico da sua boneca-bebê. "Ela não se parece comigo." Jogou a boneca no chão, observou e comprovou novamente a gravidade. Caminhou até a porta do quarto , esticou o pescoço para conseguir enxergar a sua mãe em outro cômodo, no sofá. Olhou. Muito. Correu para o quarto, boneca novamente. "Você também não se parece com a minha mãe." Olhou no fundo dos olhos rasos da boneca e lembrou da sua amiga da escola que também não se parece com os pais. " você foi adotada" Ploft. Gravidade. Umbigo. "Chegam os adotados até aqui? Como chegam?" Correu pro espelho, tirou a roupa. Chegou mais perto de si possível. Se olhou dentro dos olhos, a pele morena, apalpou as bochechas, orelhas e boca."Olhos da mamãe, boca do papai" Sorriu por descobrir a semelhança. Queixo, pescoço, ombros, mama. "no peitinho da mamãe cabem mais nenéns." Descobriu a ficção. Desceu mais , tomou cuidado com o umbigo, até descer as mãos para a vagina. Despiu a boneca e descobriu que ela não tinha periquita. "Você veio de outro país, você não faz xixi."
Dedo sobre a beirada do umbigo. "No Japão o bebê também começa aqui?" A pequena nudez de seis anos permaneceu imóvel. Pensou na cegueira do seu filho, na adoção, na gravidez, gravidade, centro, Japão, pele, plástico, semelhança...sentiu uma leve tontura e descobriu o acúmulo. Voltou de si. Eureca! De repente eis que surge a solução da sua primeira angústia declarada, o caminho para o Oráculo, a resposta para tudo, melhor que Google, Papai Noel e Deus:
- Ô MANHÊÊ !
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