quinta-feira, 21 de maio de 2015
PARA TODAS AS FELINAS
Ela olha e finge que não olha. Ajeita o cabelo pra disfarçar a timidez. Sorri sem achar graça, cruza as pernas mesmo com a calça apertando-lhe a bexiga, quer wiski mas pede caipirinha. Engole o palavrão, a expressão, as grosserias arranhando-lhe a garganta. Falou que não queria mas queria muito, depois nem fazia tanta questão mas se deixou levar...Pede salada pensando em cheeseburguer. Não concorda com tudo mas diz que sim. Sente vontade de chorar, mas é besteira. Sobra-lhe coragem pra partir pro soco,pede ajuda. Conhece muito do assunto, cala-se e se faz de aluna. Gosta mais das unhas nuas mas o rosa bebê é o que combina com o seu tipo de pele.Vontade de chorar novamente mas continua sendo besteira. Grita por hábito quando a barata aparece. Silêncio. O salto faz bolha no pé. Na bolha sangue. Olha pra dentro, desce do salto pra testar. Um pé depois o outro. Sente a sola no solo quente, mãe terra, planeta água, natureza mulher. A temperatura tocando sola, ventre, seios, coração, cabeça. Desabotoa os botões da calça que de tão apertada, fazia tempo que não sentia tanto ar entrando no dentro. Estufa a barriga. Respira fundo. Mais um pouco. Fecha os olhos e começa a se tocar. Sente de repente um imenso amor por cada dobrinha acumulada pelo tempo de seu corpo. O solo sussurra em seus ouvidos que não é besteira, começa a chorar. Chora. O acúmulo é tanto que da lágrima vai pro grito. Com a força de uma mulher rasga a roupa toda do corpo. Pede cachaça, desata a falar, dança nua pela avenida principal mesmo ainda que em setembro. Faz folia de si. Mata a barata, defende o discurso até o final, e entra na briga pra ganhar. Grita até virar risada e ao tocar seu corpo parte por parte, dobra por dobra, dentes por olhos e olhos por alma, foi aí que deu vontade de se masturbar. Gargalhada e gozo. Ainda esbaforida, ainda nua, volta pro seu próprio estado cru, corre por todas as ruas e despe agora a sua timidez. Chega em casa, se encara no espelho. Pés pretos de calçada, corpo solto no espaço, olha pra dentro do seu infinito. Nunca se sentiu tão felina, feminina, flor. Adormece no chão da sala. Foi a primeira vez que seu corpo dormiu de fato.
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testando
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